Nem sempre há um motivo aparente para Depressão

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Nem sempre há um motivo aparente para Depressão

 

A depressão pode surgir sem uma causa aparente, ou seja, sem a pessoa ter passado por perda de alguém especial, desemprego, doenças, problemas financeiros, estresse, uso de medicamentos específicos, etc. Assim aconteceu comigo e, por isso, inicialmente, foi muito difícil aceitar.

Eu me perguntava: “como eu, psicóloga, equilibrada, assídua semanalmente à psicoterapia, com uma vida feliz e produtiva, poderia estar com depressão?”, mas não achava resposta e também me questionava: “como vou explicar isso para as pessoas?”. Hoje, olhando para isso, percebo que também existia vergonha e no fundo eu me sentia culpada pelo meu quadro. Vejo que isso acontece com muita gente e, por isso, resolvi compartilhar a minha história.

Os primeiros sinais de depressão começaram a aparecer através de tristeza profunda, que me levavam a chorar com muita frequência. Eu não entendia o motivo dessa tristeza profunda e achava que era apenas chateação, com algumas situações corriqueiras do dia a dia. Porém, com o passar das semanas, eu passei a me sentir apática, sem vontade de ir trabalhar, ansiosa, com alterações no apetite e insônia.

Por orientação da minha psicóloga na época procurei uma psiquiatra, tive a confirmação do diagnóstico de depressão e de que teria que tomar medicação, então naquele momento parecia que meu “mundo desabava”. Racionalmente não fazia sentido, mas a verdade é que eu sentia uma tristeza profunda, e já sentia o peso dela e de outros sintomas que estavam me prejudicando diariamente.

Quando compartilhei de meu diagnóstico com algumas pessoas, inclusive de convívio próximo, algumas não conseguiram perceber meu sofrimento, só conseguiam enxergar a minha “casca”, achavam que eu estava exagerando e diziam: “com a vida que você tem não existe motivo para ter depressão”. Mas o fato é que eu tinha depressão, e esse tipo de comentário só me trazia mais tristeza, confusão mental e vergonha.

Esse é um dos problemas para muitos casos de depressão, pois nem sempre existe algo concreto e visível que justifique o quadro. Então, além da própria pessoa não entender, infelizmente ainda existe muita falta de informação e preconceito com as doenças mentais, mesmo com as mais conhecidas, como é o caso da depressão.

Quando tive depressão resolvi me afastar do atendimento clínico, e continuei, “a trancos e barrancos”, atuando na área de Recursos Humanos.

Em poucos meses de tratamento medicamentoso tive uma melhora significativa, me sentia com mais energia e, no meu processo de psicoterapia, pude entender a raiz de minha depressão.

Nesse processo pude olhar e acessar as minhas feridas, dores e incômodos, então entendi a depressão na minha vida como um portal de crescimento e possibilidade de ter uma vida mais autêntica, aceitando e ocupando o meu lugar nas relações e no mundo.

Fiquei nesse tratamento em torno de um ano e meio, até receber alta. Claro que, durante esse processo, a família, os amigos, as atividades externas, tomar sol, fazer exercícios, várias coisas que muitas vezes me obriguei a fazer, todos contribuíram para o meu processo de melhora.

Hoje, após 7 anos, gosto de reforçar para as pessoas que são resistentes ao tratamento, inclusive o medicamentoso, que a depressão é uma doença que tem cura e, dependendo do grau dela, a medicação é essencial e não causa dependência.

Compartilharei agora algumas informações mais técnicas sobre a doença.

Como identificar a depressão?

A depressão é caracterizada por humor deprimido, perda de interesse e prazer em atividades que antes eram prazerosas, insônia ou sono excessivo, alterações de apetite, perda de concentração, agitação, energia diminuída, fadiga, entre outros. Em casos mais graves pode ocorrer até dificuldade para atividades simples como, por exemplo, tomar banho, e até automutilações ou ideias suicidas.

O diagnóstico é caracterizado pela prevalência e quantidade de sintomas e é realizado por psicólogo ou psiquiatra.

Como funciona o tratamento?

O tratamento é realizado com psicoterapia e há casos em que é essencial o acompanhamento de um psiquiatra para inclusão de medicamento. Além disso, é recomendada a realização de um “check-up” para se averiguar eventuais sintomas relacionados a algum outro problema de saúde, como por exemplo, o hipotireoidismo.

Além desse acompanhamento, manter relacionamentos saudáveis, aceitar ajuda, praticar exercícios, entrar em contato com a natureza, ter uma alimentação equilibrada, praticar meditação (como mindfulness), ter rotina e se conectar com as crenças, são fatores que podem ajudar muito na melhora dos sintomas e recuperação.

Quanto tempo demora o tratamento?

O tempo de tratamento dependerá do grau da depressão (leve, moderada ou severa) e da evolução do processo.

Geralmente o tratamento medicamentoso tem duração de um ano e deve ser suspenso apenas mediante orientação e acompanhamento do psiquiatra.

O tempo de duração do processo de psicoterapia irá variar dependendo da resolução dos conflitos existentes e também do envolvimento ativo da pessoa em seu processo.

Reitero que depressão é uma doença, pode não existir uma causa concreta e aparente para seu início, pode haver necessidade de medicação no tratamento, não é frescura, não é culpa de quem a está sentindo, não é uma vergonha e, o mais importante, na maioria dos casos, tem cura.

E o aspecto mais importante é que a depressão poderá ser o caminho para o despertar de uma vida mais plena.

“Estou muito estressado e cansado… Gostaria de ter no trabalho o mesmo entusiasmo de antes.”

“Eu sempre fui ´pau para toda obra` e agora estou me negando a fazer as coisas.”

“Acordo sem vontade de ir trabalhar, estou extremamente desanimado e irritado, estou sentindo pânico, só quero chorar e ficar em casa.”

“Não aguento mais as cobranças no trabalho e sinto que vou explodir. Tenho demorado muito para fazer minhas atividades e estou com muita dificuldade de concentração.”

Essas são frases reais de pessoas que eram saudáveis, produtivas, dedicadas e com muito comprometimento no trabalho, mas adoeceram.

Tais pensamentos e situações parecem decorrentes de uma depressão, e realmente podem ser, mas nesses casos eram de pessoas que foram diagnosticadas com Síndrome de Burnout.